Mostrando entradas con la etiqueta poesia portuguesa. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta poesia portuguesa. Mostrar todas las entradas

sábado, 15 de marzo de 2008

"Eu não me conformo"


"Nambuangongo, meu amor - os poemas da guerra", antologia de Manuel Alegre, vai ser lançada na próxima segunda-feira, dia 17 de Março, pelas 19.30, no Palácio das Galveias, ao Campo Pequeno, em Lisboa. A obra será apresentada por Lídia Jorge e a sessão contará com as participações de Rui Mendes e Paulo de Carvalho.

Manuel Alegre explica a razão de ser desta antologia: "Ao preparar uma futura antologia poética, constatei que os poemas sobre a guerra de África, escritos em momentos diferentes e ainda que não totalmente autónomos relativamente aos livros em que foram publicados, constituem, de certo modo, um livro com uma identidade própria. Por isso, acrescenta, decidi reuni-los, não segundo a ordem cronológica em que foram escritos e editados, mas segundo um critério que, em meu entender, permite realçar a conexão entre eles e o tempo ou tempos da própria guerra." A obra reune poemas que vão desde os livros Praça da Canção e O Canto e as Armas, "na sua maioria, escritos em Angola" até poemas que lhes são "muito posteriores, mas incidindo sobre outro tempo: o de Mafra, o da partida, o da chegada a Angola e o da revelação da guerra.
" A antologia termina com o poema “À sombra das árvores milenares”, incluído no recente livro Doze Naus, um poema onde, segundo Manuel Alegre, "talvez perpassem todos os outros, mas só muitos anos depois poderia ter sido escrito" .
Parabéns caro amigo e camarada.

martes, 6 de febrero de 2007

Poemas de Manuel Alegre






TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam tanto

sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.