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jueves, 3 de julio de 2008

Mariza, mais uma vez...

"Nos anos de tournées consecutivas, além de levar a minha música, fui tendo contactos com culturas e estéticas diferentes. Fui ouvindo e entendendo. Fui assimilando até chegar aqui, ao ponto que é, neste momento, a minha verdade. Ora, se eu fui sempre verdadeira com o público e comigo própria, não havia razão para que este disco não desse conta da evolução que fui sofrendo, como cantora e como pessoa. Chamei-lhe "Terra", não só porque continuo a ter os pés bem assentes nela, mas também pela ideia de viagem, de percurso. Era inevitável, depois de ir andando tanto pelo mundo".
Mariza não precisa de renegar nada para mostrar uma evolução que, tudo somado e digerido, era inevitável: aos prémios, honrarias, distinções, que foi obtendo por esse mundo fora, foi juntando a aprendizagem e o gosto de quem percorreu todos os caminhos de olhos e ouvidos bem abertos.
O que acontece em "Terra" é um convite da guitarra portuguesa e da viola de Fado à guitarra de um inglês, Dominic Miller (parceiro de Sting há vinte anos), aos pianos de um brasileiro, Ivan Lins, e dois cubanos, Chucho Valdês e Ivan "Melon" Lewis, à guitarra flamenca de um espanhol, Javier Limón, à percussão de outro espanhol, Piraña (percussionista eleito de Paco De Lucia). O que se passa em "Terra" é a comunhão perfeita da voz de Mariza com as do cabo-verdiano Tito Paris e da afro-hispânica Concha Buika, em dois duetos de eleição. Produzido por Javier Limón, "Terra" é um disco em que se sentem várias influências; mas ao ouvi-lo vai perceber que o elo de ligação "teima" em ser português.

martes, 27 de febrero de 2007

Fado, dos meus amores


Fado, cançao do povo.

Canções que viajam pelo Mar


Os portos de mar sempre foram locais de partida e chegada de pessoas e mercadorias. Mas nos barcos também vinham as culturas e nas cidades portuárias fez-se a sua miscigenação.

Ao longo de séculos, os barcos foram transportando, de porto em porto, traços culturais que criaram as raízes da primeira globalização.

Profundamente ligado à vida marítima e à actividade portuária aparece também o fado. Assim, o fado enquanto expressão de música popular característica e original de Lisboa será inserido no conjunto mais vasto das manifestações culturais com traços semelhantes nascidas em cidades onde também existe uma ligação profunda ao mar.

No século XVIII, criou-se no Brasil um cruzamento de três continentes. O resultado apareceu sob a forma de manifestações culturais novas, que integravam a Europa, a África e a América. A componente africana foi levada pelos escravos negros. A esta misturaram-se traços das culturas ameríndias pré-existentes no Brasil.

A cultura do colonizador europeu, pelo seu lado, contribuiu com as tradições rurais portuguesas e com o barroco. Acrescia ainda o intercâmbio resultante dos contactos portuários que ligavam a Índia, a Ásia e a África. De tudo isto resultaram expressões como as modinhas e o lundum.

No início do século XIX, a corte portuguesa refugiou-se no Brasil na sequência das invasões francesas. O fado passou a integrar influências dos ritmos brasileiros em intercomunicação com a poesia nascida nos bairros populares de Lisboa. Foi também por esta altura que a guitarra de 12 cordas, introduzida pela colónia britânica residente na cidade do Porto, passou a acompanhar o fado. A relação entre a voz e o instrumento passou a ser directa, com o estilo vocal a tornar-se muito expressivo e a equilibrar as deficiências do vocabulário popular.

No século XX, o fado fez a sua estreia no teatro musical e na rádio. O fado das tabernas resistiu às luzes do salão. Mas em 1927 surgiu regulamentação que obrigava à posse de carteira profissional para se cantar em público. Mais tarde, o fado projectou-se internacionalmente como a canção nacional. O fado ganhou espaço na literatura, no cinema e na indústria discográfica, adquirindo uma dimensão nova. Mas permaneceu como expressão musical profundamente relacionada com outras manifestações culturais de cidades portuárias, o que exprime uma relação muito antiga de trocas culturais. Este facto dá ao fado um destaque especial na era da globalização.

A alma dos portugueses

O fado não é apenas uma canção acompanhada à guitarra. É a própria alma do povo português. Ouvindo as palavras de cada fado pode sentir-se a presença do mar, a vida dos marinheiros e pescadores, as ruelas e becos de Lisboa, as despedidas, o infortúnio e a saudade.

A grande companheira do fado é a guitarra portuguesa. Juntos, fado e guitarra, contam a essência de uma história ligada ao mar.O fado, por ser de todos os portugueses, está na taberna e no salão aristocrático. Surgido na primeira metade do século passado, depressa se tornou na canção popular de Lisboa. Desde então, manteve sempre as sua características de expressão de sentimentos associados à fatalidade do destino.

O fado está marcado pelo phatos das tragédias da Grécia clássica.A canção emblemática de Lisboa é também indissociável dos seus bairros mais típicos. Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa são os seus mais autênticos berços. Por esta razão, ouvir o fado é conhecer Lisboa. É também conhecer os portugueses, no mais profundo da sua alma de povo que enfrentou o mar desconhecido.E, por ser uma canção nacional, o fado está igualmente marcado pelo atracção que a aristocracia boémia sentiu pela ruas e vielas de Lisboa, pelas tabernas e pelas mulheres. O fado foi partilhado por fidalgos, por vadios e por marinheiros. No regresso ao salão aristocrata, trouxeram o fado para que fosse acompanhado ao piano.

A companheira do fadoA guitarra portuguesa é a grande companheira do fado. A sua origem remonta ao cistro surgido na França e na Itália do Renascimento.O cistro viajou desde o século XVI pela Alemanha e pela Inglaterra, tendo sido intro-duzido em Portugal pela colónia britânica radicada na cidade do Porto.

Abandonada nos outros países europeus, a guitarra adaptou-se e criou raízes em Portugal. A sua evolução deu-lhe características próprias, passando a ser designada por guitarra portuguesa.


martes, 13 de febrero de 2007

O coração tem três portas

Dulce Pontes.
O coração tem três portas já é disco de ouro!

O primeiro album inteiramente produzido por Dulce Pontes. As três portas de um coração português: Fado, Folclore/Música popular Portuguesa e Música de inspiração medieval/ Fado de Coimbra. Uma paleta sonora de música de raíz portuguesa, onde é proposta uma viagem que atravessa vários estados de espírito no sentido de cumprir o propósito de nos fazer atravessar essas "portas abertas á emoção".O primeiro CD é testemunho do encontro sempre desejado com o público que Dulce tanto ama. Só poderia ter sido gravado ao vivo. O fado vive mais nesse encontro directo, quando se desnuda, partilha feridas e exalta a esperança cantando a tristeza ou sorri de cumplicidade face a uma "A velha tendinha" relembrando Herminia Silva. De forma gradual e subtil o primeiro CD vai-se aproximando do folclore e da música popular portuguesa. Dulce segue as pegadas do grande mestre José Afonso criando uma atmosfera ora tradicional , ora vanguardista. Termina ao piano no seu mais íntimo fôlego, onde instrumento e voz são um só. O segundo CD foi gravado na Igreja de Santa Maria em Óbidos e nesse "castelo mágico" que é o Convento de Cristo em Tomar. Procurou as acústicas arquitectónicas de cada sala, elegendo cada uma delas em função da característica musical de cada tema, com o objectivo final de os servir e valorizar. Totalmente gravado ao vivo e a nú, revelando a sua formação clássica, consegue transmitir uma espiritualidade sem nome ou rito. Apenas o coração. O DVD possui um making-off , registo das gravações de Óbidos e Tomar e de um Concerto em Istambul. Penso que valeu a pena a espera...