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lunes, 31 de mayo de 2010

Alegre o meu futuro Presidente


Apoio, apoié e sempre apoiaré a um socialista honesto e de esquerdas. Ontem a Comissão Nacional do PS aprovou por larga maioria apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre, sob proposta do Secretário-Geral, José Sócrates. O S.G. e Primeiro Ministro considera que "a candidatura de Manuel Alegre honra o país".
Foi um dia cheio de felicidade o meu amigo e camarada já é o candidato do PS e de muitos milhares de portugueses a ganhar as presidenciais.
Manuel Alegre nos Açores, na apresentação da sua candidatura a Belém, no día 4 de maio de 2010 tinha dito: "Quero se mais do que vosso Presidente, quero ser vosso aliado e vosso companheiro de viagem". Na ponta de saída o seu Discurso é uma peça de honestidade, tuda uma chamada a renovação da política e da democracia.
Sou socialista, do PS e do PSOE é sou muito feliz, agora a trabalhar e apoiar a o velho poeta e sonhador. Ele mesmo diz: "Sou mais velho, é certo. Mas como lutador, desculpem lá, não há ninguém tão novo ou mais novo do que eu".
Que cada um faça desta campanha um sinal de mudança e de renovação. Eu vou a facer.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Hoje sou feliz.

miércoles, 5 de mayo de 2010

Um Presidente Poeta: Manuel Alegre


Ontem em Ponta Delgada, Açores, Manuel Alegre apresentou formalmente a su candidatura presidencial. Foi no Salão Nobre do Teatro Micaelense onde lançou a sua candidatura a Belém.
A escolha dos Açores para lançar a sua candidatura. Manuel Alegre disse tratar-se de uma homenagem à autonomia regional: "Homenagem à autonomia, sinónimo de liberdade, democracia, desenvolvimento e justiça social. Autonomia cujo aprofundamento e aperfeiçoamento reforçam a especificidade do povo açoriano como parte integrante da identidade nacional portuguesa e o insubstituível contributo da Região Autónoma dos Açores para o fortalecimento da unidade da República".
Eu, socialista e apoiante do Alegre, espero que o PS apoie a uma das suas figuras históricas. Portugal meresce um Presidente Poeta.
O Discurso marca um caminho certo, e a sua candidatura "será o que quiserem os homens e as mulheres" e apontou que "a participação cívica é condição da renovação e revitalização da democracia".
"Quero ser mais do que o vosso presidente, quero ser o vosso aliado e o vosso companheiro de viagem", concluiu Manuel Alegre, depois de apelar aos jovens para que "façam ouvir a sua voz", para que "mostrem o que pretendem construir e não privem o país do seu contributo decisivo".
Quero um Presidente Poeta.

domingo, 20 de septiembre de 2009

Sempre socialistas e do PS












Num discurso emocionado e muito aplaudido, Manuel Alegre afirmou ontem em Coimbra, naquele que foi o maior comício do PS nesta campanha, que “a lógica do Estado mínimo, a retirada do Estado das políticas públicas essenciais traz consigo uma lógica de asfixia social.” “E com asfixia social, sim – sublinhou - é que há asfixia democrática”. Manuel Alegre explicou que teve “a honra de muitas vezes ser cabeça de lista por Coimbra. Desta vez não sou por vontade própria.” “Estou aqui para afirmar a unidade do PS no essencial – e o essencial é derrotar o PSD, é impedir que venha um governo de direita que rasgue as políticas sociais e instaure um Estado mínimo para os pobres e um Estado máximo para os poderosos.”
O camarada socialista e poeta dirigiu-se directamente ao secretário-geral do PS, José Sócrates, para fazer algumas advertências em relação ao futuro. «Meu caro José Sócrates, Portugal precisa de um Governo que seja capaz de se renovar, de se repensar, de ser ele próprio um factor de mudança e de procurar novas soluções para esta crise estrutural. Sobretudo, é preciso nunca esquecer que o poder não é um fim em si mesmo, mas um meio para servir as pessoas».
“Entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite eu escolho, sem ambiguidades, José Sócrates. Entre o PS e o PSD eu estou, como não podia deixar de ser e estive sempre, com o PS”.
“Portugal não precisa do regresso da direita, precisa de um Governo de esquerda, da esquerda possível e esse Governo é o Governo do PS”.
“Neste partido nunca ninguém ficou fora dos combates, nem foi excluído por razões de divergência política. Este é um partido que preza a sua unidade e a constrói na diversidade de pontos de vista”.

Meresceu a pena lá estar, inesquecível e com confiança votar PS no día 27.


viernes, 24 de julio de 2009

34 anos de socialismo



Manuel Alegre de Melo Duarte na hora da despedida, trinta e quatro anos depois de ter entrado pela primeira vez na Assembleia da República como deputado, Manuel Alegre ouviu elogios da esquerda à direita ao seu espírito crítico, coragem e frontalidade.
"Saio da Casa da Democracia fiel à República, à liberdade, à democracia e ao socialismo. E, sobretudo, fiel a Portugal e ao povo português" reafirmou o velho diputado poeta no seu último discurso na AR, aplaudido de pé.

Na data do 23 de julho Alegre dirigou-se a os deputados:

Foi uma honra ter sido deputado durante 34 anos. Saio por decisão pessoal. Mas saio tal como entrei: combatendo pelas minhas ideias e por uma República moderna, em que a democracia política se conjugue com a democracia económica, a democracia social, a democracia cultural e os novos direitos civilizacionais, entre os quais o direito ao ambiente e à beleza. Uma democracia em que os direitos políticos sejam inseparáveis dos direitos sociais consagrados na Constituição. Foi esse o sonho dos deputados constituintes dos diferentes quadrantes ideológicos e políticos. Tal como há 34 anos, é minha convicção que o esvaziamento dos direitos sociais implicará sempre uma discriminação dos direitos políticos e um empobrecimento da democracia.

Pertenço a uma geração que nasceu em ditadura. Assisti às farsas eleitorais e à existência de uma caricatura de parlamento. Andei numa escola primária onde todos os dias se faziam prelecções sobre os males que a política, os partidos e o parlamentarismo tinham feito ao país. Essa cultura populista, anti-democrática e anti-parlamentar renasce por vezes sob outras formas. A Assembleia da República é o mais exposto de todos os órgãos de soberania, o mais escrutinado, aquele que é mais fácil combater. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos, foi que de cada vez que o Parlamento cede ao populismo, este não agradece, reforça-se.

Houve muitos portugueses e portuguesas que lutaram, sofreram a prisão, a tortura e o exílio para que houvesse em Portugal um parlamento democrático. Alguns deram a vida para que hoje seja possível termos uma Assembleia da República livremente eleita pelo povo. Essa é uma responsabilidade que deve inspirar aqueles que vão ser eleitos. Honrar e prestigiar o parlamento é honrar e prestigiar a democracia. Por isso é necessário combater o divórcio crescente entre os cidadãos e a política. O que só é possível com uma intransigente ética republicana, com espírito de serviço público, com transparência e fidelidade à palavra dada perante os eleitores.

Neste último dia recordo o primeiro dia em que aqui entrei. Recordo Francisco Salgado Zenha a entregar-me uma pequena brochura intitulada “A mais bela função do mundo”. Tal como então, continuo a pensar que a função de deputado é a mais bela função do mundo.

Saúdo o Presidente da Assembleia da República, os membros da mesa e os Vice-Presidentes com quem estabeleci laços de leal cooperação e amizade. Cumprimento todos os líderes de todas as bancadas, com um fraterno abraço ao Presidente do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, o meu camarada Alberto Martins. Saúdo os companheiros da Constituinte, Jaime Gama, Mota Amaral, Miranda Calha, Jerónimo de Sousa. Saúdo todas as senhoras e senhores deputados. Agradeço a colaboração e a dedicação de todos os funcionários da Assembleia da República, em especial dos que mais de perto comigo trabalharam. Cumprimento todos os senhores jornalistas pelo seu papel essencial na difusão dos trabalhos parlamentares. Peço desculpa de qualquer falta que por acção ou omissão possa ter cometido. Recordo com emoção as grandes figuras que por aqui passaram, de Adelino Amaro da Costa a Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Carlos Brito, entre muitos outros.

Entrei aqui como deputado do Partido Socialista com o sonho de pela primeira vez na história construir uma democracia socialmente avançada. Tal como então continuo a acreditar que esse projecto, sobretudo perante a crise mundial, é não só possível como cada vez mais necessário e urgente. Como há 34 anos, saio da Casa da Democracia fiel à República, à liberdade, à democracia e ao socialismo. E, sobretudo, fiel a Portugal e ao povo português.

Obrigado camarada e até breve.


sábado, 16 de mayo de 2009

Obrigado camarada Manuel Alegre




Em reunião ontem realizada em Lisboa, Manuel Alegre informou os seus apoiantes, pertencentes ao MIC e à Corrente de Opinião Socialista, da decisão pessoal que tomou. Explicou que não saía do PS, porque apesar de poder "não concordar com a prática e as políticas", diz reconhecer-se "nos valores e princípios do socialismo democrático".
Em conferência de imprensa a seguir à reunião, Manuel Alegre leu uma declaração:
1. Não sairei do PS – Ajudei a fazer este partido, a sua história é parte da minha história, posso não concordar com a prática e as políticas, mas reconheço-me nos valores e princípios do socialismo democrático.
2. Não formarei um partido para as próximas legislativas – Reconheço que há uma crise de confiança nos partidos cujo monopólio está a esgotar-se, há a necessidade de renovar a vida política, de cativar os jovens para a política e para a coisa pública, assim como de preparar novas soluções para a esquerda e para a democracia. Mas isso é um processo inseparável do processo social. Exige uma acção pedagógica e o reforço da cidadania. E não se fará sem ou contra o espaço socialista.
3. Não serei candidato a deputado – Fui convidado pelo Secretário Geral, com espírito de abertura e companheirismo, para integrar as listas do PS. Não seria digno impor condições ao Secretário Geral do PS. Só faço exigências a mim mesmo. E são essas exigências que me ditam a decisão de não me candidatar nas próximas eleições legislativas.
Não há ruptura com o PS.
Não há abdicação nem retirada.
Há a decisão de continuar, sob outras formas, o meu combate de sempre pela renovação da vida democrática, pela cidadania e pelo socialismo democrático.
Obrigado camarada, nós os socialistas precisamos de ti.

sábado, 15 de marzo de 2008

"Eu não me conformo"


"Nambuangongo, meu amor - os poemas da guerra", antologia de Manuel Alegre, vai ser lançada na próxima segunda-feira, dia 17 de Março, pelas 19.30, no Palácio das Galveias, ao Campo Pequeno, em Lisboa. A obra será apresentada por Lídia Jorge e a sessão contará com as participações de Rui Mendes e Paulo de Carvalho.

Manuel Alegre explica a razão de ser desta antologia: "Ao preparar uma futura antologia poética, constatei que os poemas sobre a guerra de África, escritos em momentos diferentes e ainda que não totalmente autónomos relativamente aos livros em que foram publicados, constituem, de certo modo, um livro com uma identidade própria. Por isso, acrescenta, decidi reuni-los, não segundo a ordem cronológica em que foram escritos e editados, mas segundo um critério que, em meu entender, permite realçar a conexão entre eles e o tempo ou tempos da própria guerra." A obra reune poemas que vão desde os livros Praça da Canção e O Canto e as Armas, "na sua maioria, escritos em Angola" até poemas que lhes são "muito posteriores, mas incidindo sobre outro tempo: o de Mafra, o da partida, o da chegada a Angola e o da revelação da guerra.
" A antologia termina com o poema “À sombra das árvores milenares”, incluído no recente livro Doze Naus, um poema onde, segundo Manuel Alegre, "talvez perpassem todos os outros, mas só muitos anos depois poderia ter sido escrito" .
Parabéns caro amigo e camarada.

miércoles, 6 de febrero de 2008

Socialista e do PS para sempre


Manuel Alegre estive no día 29 de janeiro em Vila Nova de Gaia no Clube dos Pensadores a participar num debate sobre "O sistema político-alternancia e alternativas". A intervençao do Alegre intitula-se: "O dever dos socialistas é continuar a perguntar", meresce a pena ler a mesma Intervençao em Vila Nova de Gaia.
Manuel Alegre exige mais socialismo dentro do PS, e para o conseguir, admite mesmo recorrer à criação de uma nova corrente de opinião no interior do partido.
No seu blogue Manuel Alegre o velho lutador, poeta e socialista de alma e sentimento, fala do futuro num editorial que disce: "Nos últimos dias criou-se a meu respeito mais um estereotipo, o de que eu iria criar um novo partido e que estava a ser pressionado nesse sentido. Nunca tal afirmei a quem quer que fosse. Nem tenho conhecimento de qualquer pressão nesse sentido, sendo certo também que, tal como disse em Gaia, não me deixo condicionar por agendas mediáticas ou alheias nem gosto que decidam pela minha cabeça ou me atribuam intenções que nunca proclamei. A reunião que convoquei para dia 9 de Fevereiro é uma reunião de militantes socialistas que me apoiaram nas presidenciais, com o único objectivo de uma reflexão comum sobre a situação do PS e do país, tendo em vista contribuir, tal como afirmei em Gaia, para uma eventual corrente de opinião socialista."

Faço minhas as palavras do Alegre em Gaia: "Há tempos disse que havia um buraco negro na esquerda. Creio que começa a haver bloqueios na própria democracia, porque esta não supõe apenas alternância, precisa também de alternativas."
É preciso mais esquerda na esquerda.
É preciso mais socialismo no partido que dele se reclama.
É preciso mais democracia na democracia.

martes, 31 de julio de 2007

Manuel Alegre, poeta e socialista





Manuel Alegre el día 23 de julio publicaba un artículo en el Diario Público , artículo que merece la pena leer, e igualmente el llamamiento y apoyo que en nombre del MOVIMENTO DE INTERVENÇAO E CIDADANIA, nos realiza a todos los miembros del mismo ,José de Faria Costa, Presidente da Mesa da Assembleia Geral do MIC, Llamamiento que suscribo como miembro participante del MIC y hago mías las palabras de Manuel Alegre.

Contra o medo, liberdade

Nasci e cresci num Portugal onde vigorava o medo. Contra eles lutei a vida inteira. Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á. Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se. Não por acaso ou coincidência. Mas porque há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da Pide. Casos pontuais em si mesmos inquietantes. E em que é tão condenável a denúncia como a conivência perante ela.

Não vivemos em ditadura, nem sequer é legítimo falar de deriva autoritária. As instituições democráticas funcionam. Então porquê a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa? Porquê o medo? De quem e de quê? Talvez os fantasmas estejam na própria sociedade e sejam fruto da inexistência de uma cultura de liberdade individual.

Sottomayor Cardia escreveu, ainda estudante, que “só é livre o homem que liberta”. Quem se cala perante a delação e o abuso está a inculcar o medo. Está a mutilar a sua liberdade e a ameaçar a liberdade dos outros. Ora isso é o que nunca pode acontecer em democracia. E muito menos num partido como o PS, que sempre foi um partido de homens e mulheres livres, “o partido sem medo”, como era designado em 1975. Um partido que nasceu na luta contra a ditadura e que, depois do 25 de Abril, não permitiu que os perseguidos se transformassem em perseguidores, mostrando ao mundo que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair noutra ditadura de sinal contrário.

Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado. No PS sempre houve sensibilidades, contestatários, críticos, pessoas que não tinham medo de dizer o que pensam e de ser contra quando entendiam que deviam ser contra. Aliás, os debates desse congresso, entre Sócrates, eu próprio e João Soares, projectaram o PS para fora de si mesmo e contribuíram em parte para a vitória alcançada nas legislativas. Mas parece que foram o canto do cisne. Ora o PS não pode auto-amordaçar-se, porque isso seria o mesmo que estrangular a sua própria alma.

Há, é claro, o álibi do governo e da necessidade de reduzir o défice para respeitar os compromissos assumidos com Bruxelas. O governo é condicionado a aplicar medidas decorrentes de uma Constituição económica europeia não escrita, que obriga os governos a atacar o seu próprio modelo social, reduzindo os serviços públicos, sobrecarregando os trabalhadores e as classes médias, que são pilares da democracia, impondo a desregulação e a flexigurança e agravando o desemprego, a precariedade e as desigualdades. Não necessariamente por maldade do governo. Mas porque a isso obriga o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) conjugado com as Grandes Orientações de Política Económica. Sugeri, em tempos, que se deveria aproveitar a presidência da União Europeia para lançar o debate sobre a necessidade de rever o PEC. O Presidente Sarkozy tomou a iniciativa de o fazer. Gostei de ouvir Sócrates a manifestar-se contra o pensamento único. Mas é este que condiciona e espartilha em grande parte a acção do seu governo.

Não vou demorar-me sobre a progressiva destruição do Serviço Nacional de Saúde, com, entre outras coisas, as taxas moderadoras sobre cirurgias e internamentos. Nem sobre o encerramento de serviços que agrava a desertificação do interior e a qualidade de vida das pessoas. Nem sobre a proposta de lei relativa ao regime do vínculo da Administração Pública, que reduz as funções do Estado à segurança, à autoridade e às relações internacionais, incluindo missões militares, secundarizando a dimensão administrativa dos direitos sociais. Nem sobre controversas alterações ao estatuto dos jornalistas em que têm sido especialmente contestadas a crescente desprotecção das fontes, com o que tal representa de risco para a liberdade de imprensa, assim como a intromissão indevida de personalidades e entidades na respectiva esfera deontológica. Nem sobre o cruzamento de dados relativos aos funcionários públicos, precedente grave que pode estender-se a outros sectores da sociedade. Nem ainda sobre a tendência privatizadora que, ao contrário do Tratado de Roma, onde se prevê a coexistência entre o público, o privado e o social, está a atingir todos os sectores estratégicos, incluindo a Rede Eléctrica Nacional, as Águas de Portugal e o próprio ensino superior, cujo novo regime jurídico, apesar das alterações introduzidas no parlamento, suscita muitas dúvidas, nomeadamente no que respeita ao princípio da autonomia universitária.

Todas estas questões, como muitas outras, são susceptíveis de ser discutidas e abordadas de diferentes pontos de vista. Não pretendo ser detentor da verdade. Mas penso que falta uma estratégia que dê um sentido de futuro e de esperança a medidas, algumas das quais tão polémicas, que estão a afectar tanta gente ao mesmo tempo.

Há também o álibi da presidência da União Europeia. Até agora, concordo com a acção do governo. A cimeira com o Brasil e a eventual realização da cimeira com África vieram demonstrar que Portugal, pela História e pela língua, pode ter um papel muito superior ao do seu peso demográfico. Os países não se medem aos palmos. E ao contrário do que alguém disse, devemos orgulhar-nos de que venha a ser Portugal, em vez da Alemanha, a concluir o futuro Tratado europeu. Parafraseando um biógrafo de Churchill, a presidência portuguesa, na cimeira com o Brasil, recrutou a língua portuguesa para a frente da acção política. Merece o nosso aplauso. O que não merece palmas é um certo estilo parecido com o que o PS criticou noutras maiorias. Nem a capacidade de decisão erigida num fim em si mesma, quase como uma ideologia. A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o governo, este passa a mandar no partido que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.

Admito que a porta é estreita e que, nas circunstâncias actuais, as alternativas não são fáceis. Mas há uma questão em relação à qual o PS jamais poderá tergiversar: essa questão é a liberdade. E quem diz liberdade diz liberdades. Liberdade de informação, liberdade de expressão, liberdade de crítica, liberdade que, segundo um clássico, é sempre a liberdade de pensar de maneira diferente. Qualquer deriva nesta matéria seria para o PS um verdadeiro suicídio.

António Sérgio, que é uma das fontes do socialismo português, prezava o seu “querido talvez” por oposição ao espírito dogmático. E Antero de Quental chamava-nos a atenção para estarmos sempre alerta em relação a nós próprios, porque “mesmo quando nos julgamos muito progressistas, trazemos dentro de nós um fanático e um beato.” Temo que actualmente pouco ou nada se saiba destas e doutras referências.

Não se pode esquecer também a responsabilidade de um poder mediático que orienta a agenda política para o culto dos líderes, o estereotipo e o espectáculo, em detrimento do debate de ideias, da promoção do espírito crítico e da pedagogia democrática. Tenho por vezes a impressão de que certos políticos e certos jornalistas vivem num país virtual, sem povo, sem história nem memória.

Não tenho qualquer questão pessoal com José Sócrates, de quem muitas vezes discordo mas em quem aprecio o gosto pela intervenção política. O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa.

Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.

Sei, por experiência própria, que não é fácil mudar um partido por dentro. Mas também sei que, assim como, em certos momentos, como fez o PS no verão quente de 75, um partido pode mobilizar a opinião pública para combates decisivos, também pode suceder, em outras circunstâncias, como nas presidenciais de 2006 e, agora, em Lisboa, que os cidadãos, pela abstenção ou pelo voto, punam e corrijam os desvios e o afunilamento dos partidos políticos. Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.

Por isso, como em tempo de outros temores escreveu Mário Cesariny: “Entre nós e as palavras, o nosso dever falar.” Agora e sempre contra o medo, pela liberdade.

Bem-haja Manuel Alegre


jueves, 12 de abril de 2007

La importancia de los blogs. Caso José Sócrates


José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

El Primer Ministro socialista de Portugal tiene problemillas sobre sus títulos académicos, las primeras noticias aparecieron en blogs y saltaron a la prensa nacional. Ayer compareció en la RTP para dar explicaciones sobre el tema, ha tardado más de la cuenta pero parece que el tema está aclarado.

¿Quién dijo que los blogs no tienen futuro?

Biografía de José Sócrates Carvalho Pinto de Melo

Entrevista de ayer en la RTP, para esclarecer dudas.

RTP – Sr. primeiro-ministro, esta questão da sua licenciatura prejudicou a sua actividade enquanto primeiro-ministro?

José Sócrates – Não, não perturbou. Eu não falei antes porque nas últimas semanas decorria um processo de inspecção à Universidade Independente (UnI) e o Governo tinha pela frente a necessidade de tomar uma decisão muita séria relativamente à UnI, como veio, aliás, a tomar. E achei que não devia, de nenhuma forma, condicionar nem o trabalho da inspecção nem a decisão do Governo, com alguma declaração com o meu caso pessoal.

– Se interviesse o que é que aconteceria?

- Eu julgo que não devíamos confundir as duas coisas. E isso é que era necessário, mantendo-me em silêncio até que o Governo tomasse uma decisão, para depois falar sobre o meu caso pessoal. E chegou o momento de o fazer. Tendo bem presente as minhas responsabilidades de primeiro-ministro, que sobrelevam às minhas necessidades ou à necessidade de dar uma resposta mais imediata que porventura tinha mais a ver com os interesses da minha imagem política, que decidi desta forma.

– E mantendo este tempo todo de silêncio?

– Os portugueses entendem bem o facto de ter feito prevalecer as responsabilidades de um primeiro-ministro, que deve falar quando deve falar desta matéria e não em função da sua imagem política.

– Como é que o senhor chega à UnI?

– Muito bem: chegou, portanto, o momento de me defender de todas as insinuações e prestar todos os esclarecimentos para que não fique a mínima dúvida sobre, em primeiro lugar, as minhas habilitações, e, em segundo lugar, sobre a forma como consegui essas habilitações sem nenhum tratamento de favor.

– Rejeita qualquer tratamento de favor que tenha obtido em qualquer das universidades onde tenha andado?

– Não só rejeito, como estou em condições... porque eu estou na situação extraordinária de ninguém ter provado que eu fui sujeito a uma situação excepcional e ter de provar que não fui favorecido em nenhuma situação. E é isso que pretendo fazer.

– Mas tem de o provar, porque surgiram uma série de inconsistências e de elementos pouco claros.

– Eu gostaria de começar pelas minhas habilitações. Em primeiro lugar, fiz quatro anos de bacharelato em Coimbra. Depois, inscrevi-me no ISEL para tirar a licenciatura num curso de estudos superiores especializados, onde fiz um ano. Depois, fui para a UnI, onde fiz um ano, e obtive a licenciatura. Uns anos depois de ter saído do Governo inscrevi-me num MBA no ISCTE, frequentei e terminei com aproveitamento o MBA. Estas habilitações também foram postas em causa nas últimas semanas sem nenhuma razão: tenho aqui os certificados que o provam. Fiz sete anos e meio de Ensino Superior e seis anos e meio dos quais passei em instituições públicas do Ensino Superior público e apenas um ano na UnI.

– E porque é que escolheu a UnI?

– Quando me inscrevi no ISEL, inscrevi-me num curso que dava equivalência a licenciatura. Ao fim de um ano, eu achei, como muitos outros colegas meus, que era melhor terminar a minha licenciatura numa universidade para terminar com uma licenciatura e não com um curso que dava equivalência. Mas também por uma outra razão: a UnI é perto do ISEL e funcionava, e funciona, em regime pós-laboral. Mas quero combater, desde já, a insinuação de que mudei do ISEL para a UnI para ter mais facilidades. Porventura eu teria algumas dificuldades no ISEL. Isso não é verdade. Isso cai pela base. Pelo certificado de habilitações do ISEL é fácil ver que as minhas notas não envergonham ninguém: tenho uma média superior a 14 valores.

– A UnI foi-lhe aconselhada por alguém?

– Foi-me aconselhada por muita gente. Insinuou-se também que as minhas equivalências tinham sido conferidas com um certo tratamento de favor pelo facto de eu ser membro do Governo na altura. Isso é falso. Eu fiz um requerimento ao senhor reitor, como todos os alunos. E recebi a resposta no dia 12 de Setembro de 1995. Neste dia eu era apenas um deputado da oposição. Não tinha havido sequer eleições.

– O certificado de habilitação do ISEL só foi passado mais de um ano depois do prazo legalmente estipulado na altura para o efeito. Ou seja, a UnI, quando lhe atribui um plano de equivalências, o faz apenas a presumir a sua boa-fé.

– Exactamente. Para mim, como para todos os alunos.

– É comum isso acontecer?

– É comum na UnI, como noutras, segundo estou informado. Eu disse à UnI: ‘eu tenho estas habilitações, mas não posso apresentá-las porque os professores ainda não lançaram as notas’. A universidade confiou na minha palavra, mas não me passou nenhum certificado posterior sem eu ter apresentado o certificado de habilitações do ISEL. E o mais importante é que as cadeiras que eu disse que tinha feito confirmei-as.

– Das cinco cadeiras que o senhor fez na UnI, as notas de quatro foram lançadas no mesmo dia em Agosto. As universidades costumam estar encerradas em Agosto, como é que explica isto?

– Um aluno não é responsável pelo funcionamento de uma universidade. E é comum e vulgar que os professores vão lançar as notas todas no mesmo dia.

– Quem é que lhe deu aulas da cadeira de Inglês Técnico?

– Quem me deu a cadeira de Inglês Técnico foi o reitor da UnI, reitor que eu só conheci durante a frequência do curso.

Para mi está muy claro que la legitimidad de un primer ministro viene de los votos que obtiene y no de los títulos que dice tener, pero a veces hay que cuidar estos detallitos y no decir que se es algo y no se tiene título que lo acredite.


jueves, 15 de marzo de 2007

Palavras de Manuel Alegre

Portugal, Juventude e Utopía.

Creio que me deram a honra de vir aqui hoje por ser poeta. A única ciência que tenho é essa, a da poesia. Perdoem-me a imodéstia de a considerar a ciência mais exacta. Não tenho outra sabedoria senão essa, a da poesia, a única que, segundo Novalis, é capaz de apreender o real absoluto. Cada palavra é um pedaço do universo. Ou como dizia outro poeta: “Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo.” Creio na eficácia mágica da palavra. Creio que com palavras se pode convocar as forças benfazejas ou exorcizar as forças maléficas. Creio que com palavras se pode mudar a vida e transformar o mundo. Mas creio também que uma palavra errada pode alterar o equilíbrio cósmico. Por isso fiquei aflito quando o Dr. Torres Pereira me convidou para usar da palavra nesta universidade que, por coincidência, tem o nome de um dos meus livros. Tenho medo do efeito do que possa dizer. Comecemos, por exemplo, pela palavra Atlântico. Nós somos essa palavra. Segundo Jaime Cortesão, a convergência dos caracteres atlânticos é um dos factores da formação de Portugal. A atlanticidade é a essência da nossa identidade. Talvez por isso o poeta Afonso Duarte escreveu: “Há só mar no meu país.” Atlântico, já uma vez o disse, é uma pátria. Portugal fez-se para fora, fez-se navegando e descobrindo, e navegando e descobrindo ensinou o mundo a não ter medo do mar, aproximou continentes e povos, operou a revolução cultual e científica que esteve na base do renascimento, abriu caminho à primeira globalização e foi de certo modo Europa antes de a Europa o ser. Navegando e descobrindo fez, como disse Pessoa, que o mar unisse, já não separasse. Mas navegando e descobrindo de si mesmo um pouco se perdeu. Estão a ver a carga histórica que está dentro da palavra Atlântico. E o privilégio que é ser aluno de uma Universidade tão ligada ao nosso destino colectivo. E a responsabilidade de ser convidado para intervir na abertura do ano lectivo. Peço ao Atlântico que me dê a sua bênção e ao ritmo das suas ondas que me inspire. Porque não é fácil vir aqui falar a quem tem outra idade, outras vivências, outra maneira porventura de olhar o mundo. Não acredito em gerações sem causas. Não sei, aliás, se acredito em gerações. Dentro do que se convencionou chamar geração há quem saiba compreender, interpretar e até mudar a sua circunstância histórica. E há quem se conforme ou simplesmente não dê por nada. A minha geração, chamemos-lhe assim, teve uma circunstância histórica diferente da vossa. Como já tive ocasião de escrever, a minha geração foi ocupada pela História. A História invadiu as nossas vidas, circulou nas palavras, nos ritmos, nos amores, por vezes foi quase uma obsessão. Não só porque nascemos e crescemos com uma ditadura, mas porque, a páginas tantas, fomos chamados para a guerra. Uma guerra que talvez muitos de vocês hoje vejam de maneira diferente, alguns, se calhar, quase com a nostalgia de a não terem feito. Para nós não foi um filme, nem um romance, nem uma aventura. Foi algo que fez nascer dentro de nós uma terrível pergunta: porquê morrer, porquê matar? Era uma questão concreta, não apenas imaginária. Porquê morrer e matar? Em nome de quê? E para quê? Não era só a interrupção das nossas vidas, o corte nos estudos e nas profissões, a separação das famílias, o partir para longe, para terras para nós desconhecidas num tempo em que não havia telemóveis nem a facilidade de informação e comunicação que há hoje. Não era só o desperdício da nossa juventude, era sobretudo essa terrível questão moral: porquê? Para quê? Tanto mais que muitos de nós sabíamos o que tinha acontecido na Indochina e na Argélia, sabíamos que o movimento da História era no sentido do direito dos povos a disporem dos seus próprios destinos e sabíamos, também, que, apesar dos encontros e desencontros, dos erros e até dos crimes, se é legítimo falar de uma cultura portuguesa o essencial dessa cultura é um certo universalismo, a capacidade de compreender o outro e a diferença. Melhor do que ninguém o exprimiram Camões nas Endechas a Bárbara Cativa, um dos mais belos poemas do amor e do anti-racismo, e Pero Vaz de Caminha quando, na Carta a D. Manuel em que lhe dá a nova do achamento do Brasil, exalta a beleza das índias e dos índios, de quem diz serem eles mais amigos nossos que nós deles, o que é uma autocrítica e um elogio da diferença. Ora aquela guerra para que fomos chamados em 1961 vinha, no meu entender e no de muitos outros, ao arrepio do movimento e do sentido da História, não só a do presente e do futuro, mas também do passado. “É-se tanto mais português quanto mais universal”, disse Fernando Pessoa. E foi também ele que escreveu esse verso imperecível: “Portugal, futuro do passado.” Ora “Portugal, futuro do passado” era um Portugal que tinha de rimar com liberdade e respeito pelos outros, não com ditadura nem com guerra. Por isso a nossa circunstância histórica impôs a muitos de nós o dever moral de sermos contra. “É preciso ser contra isto para ser por isto,” ouvi muitas vezes dizer a Miguel Torga. Para Octávio Paz, o grande escritor mexicano, Prémio Nobel de Literatura, “a liberdade não é uma filosofia e nem sequer uma ideia: é um movimento de consciência que nos leva, em certos momentos, a pronunciar dois monossílabos: sim ou não.” A minha circunstância histórica levou-me a dizer não. Havia então um grande não para dizer. Se algo distingue a minha geração é esse não: um não histórico, poético, moral e cultural. As novas gerações vêem este acontecimento talvez de outro modo. Não estiveram lá, não o viveram por dentro, não sofreram o Portugal amordaçado daqueles dias. Por outro lado, talvez nós próprios não tenhamos sabido transmitir a nossa vivência. Os responsáveis por alguns mal entendidos ou até pelo desconhecimento e incompreensão do que foi esse tempo somos nós, os da minha geração, não os que vieram depois. Os mais novos não têm a obrigação de saber, nós é que tínhamos e temos o dever de lhes dizer como foi. Talvez por isso existam algumas ambiguidades. Segundo um estudo intitulado “Consciência Histórica e Identidade – Os jovens portugueses num contexto europeu”, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais e coordenado por José Machado Pais, os jovens portugueses combinam “uma razoável afirmação da democracia com uma extrema crítica da mesma.” Há, segundo esse estudo, uma ambivalência: “o poder da crítica que a democracia confere aos jovens não os impede de serem críticos em relação à própria democracia.” Outra ambivalência é relativa à Europa. Os jovens portugueses são dos que mais pensam que a integração europeia é positiva para ao países europeus. Mas ao mesmo tempo são críticos em relação ao próprio conceito de Europa. Uma terceira ambivalência diz respeito ao colonialismo. Os jovens portugueses são dos que mais defendem a representação do “colonialismo como aventura”; em contrapartida são críticos do “colonialismo como exploração”. Finalmente: os jovens portugueses, juntamente com os gregos, são os jovens europeus que mais entusiasmo mostram pela História, o que contradiz o pretenso desinteresse que os nossos professores lhes atribuem por esta disciplina. Tanto para portugueses como para gregos as identidades nacionais são identidades retrospectivas, alimentam-se do passado. Tal atitude, segundo Machado Pais, é própria de quem vive “numa situação de relativa periferização económica, mas, em contrapartida, valoriza o seu passado histórico.” Os dados deste estudo são sem dúvida interessantes e permitem compreender um pouco melhor o que pensam e sentem os jovens portugueses. Um pouco, sublinho. Porque nenhum inquérito permite ler por completo o pensamento e a alma de uma juventude. A vivência é pessoal e intransmissível. Mas aos que procuram a sua afirmação identitária na nostalgia do passado, eu gostaria de lembrar que o poeta Teixeira de Pascoaes, autor de Arte de Ser Português, dizia que a saudade portuguesa é sobretudo uma saudade prospectiva, uma saudade do futuro. Foi essa ânsia de futuro que na era quinhentista levou os portugueses pelo mar fora. É ela que de certo modo afirma a nossa identidade. E é ela que tem de conduzir a novos sonhos. Permitam-me apontar duas possíveis diferenças entre a geração anterior e a actual. A minha geração foi muito marcada por utopias e projectos colectivos. Creio que os jovens de hoje estão mais voltados para a realização pessoal. A utopia é individual e talvez mesmo individualista. Outra diferença, porventura a mais importante. A minha geração viveu um tempo marcado pela escassez de informação. A censura e a ausência de liberdade de informação obrigavam-nos a um grande esforço de procura, de pesquisa, de leitura. A informação que se obtinha era talvez mais sedimentada, mais suada, mais confirmada. Hoje, a liberdade de informação e a revolução tecnológica, com os novos meios existentes, televisão, internet, telemóvel, etc, inundam as novas gerações de um excesso de informação. Há talvez informação a mais e confirmação a menos. Atomização, fragmentação, dispersão. É muito difícil distinguir o que é verdade e o que não é, o que tem qualidade e o que não tem. Esta atomização informativa leva também à fragmentação cultural e à dispersão dos projectos. A circunstância histórica que vivi favorecia os projectos colectivos. Hoje é mais difícil estabelecer pontes entre o que está disperso. Mas isto não significa que não haja causas, nem ideais, nem novas utopias. A minha geração foi marcada pela ditadura e pela guerra. Mas sabíamos que uma vez terminado o curso o emprego estava garantido. Para as gerações actuais, a dificuldade do primeiro emprego e a insegurança do futuro são as grandes ameaças. Mas a responsabilidade será da Escola? Será que a Escola não prepara para a vida profissional? Segundo o estudo Jovens Portugueses de Hoje – Resultados do Inquérito de 1997, coordenado pelos Professores Manuel Villaverde Cabral e José Machado Pais, o que se verifica no nosso país não é a inadequação da escola ao mercado de trabalho, é precisamente o contrário. O aparelho produtivo não tem sabido incorporar a mão de obra jovem mais qualificada de que o país hoje dispõe. O sistema produtivo continua a pensar em moldes tradicionais e aposta na mão de obra menos qualificada. Entretanto, o número de estudantes dos 15 aos 19 anos duplicou entre 1981 e 1991. Mas a taxa de actividade juvenil decaiu fortemente no mesmo período. O peso dos jovens na população activa portuguesa era, em 1997, de apenas 25,3%. O desemprego atinge sobretudo jovens licenciados ou com ensino secundário completo. Mas poder-se-á falar de sobrequalificação dos jovens, quando Portugal, no que respeita aos níveis de escolarização, continua na cauda da Europa? Esta é uma questão essencial, sobretudo quando tanto se fala na falta de competitividade do país. Uma questão que não se resolve com desemprego, nem baixos salários, nem com apelos a novas formas de proteccionismo, muito menos com cortes na Educação. A questão da competitividade resolve-se apostando na qualificação dos jovens e na aproximação das forças produtivas à Universidade. É preciso mudar o mercado de trabalho. Isso passa por um pacto entre a Universidade e as forças produtivas. E passa sobretudo por uma reforma de mentalidade de grande parte dos nossos empresários. Aquela reforma de mentalidade que, segundo o grande mestre António Sérgio, era condição da viabilidade de todas as outras reformas. Eu penso que falta essa reforma de mentalidade. Falta uma reforma cultural que tem de passar pela ligação directa das forças produtivas à Universidade. Só assim se poderá adequar o mercado de trabalho aos jovens mais qualificados. E só assim se poderá vencer em Portugal a batalha da competitividade. O desemprego juvenil é uma outra forma de guerra, uma outra forma de ser invadido pela História e de sofrer as mutações que trazem consigo outros angústias, outros medos, outras interrogações. Mas, também, novos apelos e novas causas. Num mundo globalizado e unipolar, marcado por um lado pela uniformidade, a economia única, o pensamento único, a cultura única e, por outro, por uma certa etnização ou “bigbrotherização” da vida, num mundo em que a hegemonia económica, política e cultural caminha a par com novas formas de desagregação e fragmentação, é necessário um novo sonho, um novo golpe de asa, um novo suplemento de alma. Creio que, para além das causas que são próprias a cada geração, há uma causa que nos é comum a todos: essa causa é Portugal. O nosso país foi sempre um país aberto ao mundo. Nação piloto e pioneira no encontro com outros povos e outras culturas. Quando as nossas naus desbravavam o mar desconhecido nós fomos então os primeiros europeus. Tal só foi possível porque, enquanto os outros países da Europa se digladiavam em guerras intestinas e feudais, Portugal tinha feito a revolução de 1383-85, que foi a primeira revolução popular e nacional da Europa. Como escreveu Dominique Lelièvre no seu belo livro Mer et Révolution, o povo português foi também um povo pioneiro no despertar do sentimento nacional. Esse sentimento não está nem nunca esteve em contradição com o espírito de abertura aos outros. Mas na era da globalização e da construção europeia, de que somos parte integrante, é preciso reavivar e dar uma nova perspectiva ao sentimento nacional. A nossa participação na construção da Europa não significa a diluição de Portugal. Pelo contrário: mais do que nunca é necessário um projecto nacional. Queremos ser europeus de primeira. Mas só o seremos se soubermos preservar a nossa identidade. Que é como quem diz: a nossa atlanticidade. Não podemos voltar as costas ao mar. Teremos tanto mais força na Europa quanto mais soubermos projectar no mundo a nossa vocação e tradição atlântica. É essa a nossa singularidade. E eu diria mesmo: a nossa primeira e permanente utopia. Talvez, aliás, muitos de nós não saibam que Utopia tem uma raiz portuguesa. Segundo Thomas More, teria sido um marinheiro português chamado Rafael que, num bar de Amsterdão, lhe teria falado dessa ilha perfeita. Onde ficava essa ilha ele não o disse. Então Tomas More chamou-lhe Nusquama, palavra que, em latim, significa Em Parte Alguma. Mas o seu amigo Erasmo ter-lhe-ia aconselhado a substitui-la pela palavra grega Utopos, que quer dizer o mesmo: Em Parte Alguma. Talvez a ilha só tenha existido na imaginação daqueles que a procuraram. Talvez ela seja um pouco de todas as ilhas. Talvez ela não seja mais do que a própria demanda. Ou talvez, como insinuava Torga, ao falar da “índias de dentro”, ela só exista, afinal, dentro de cada um de nós. Está aqui e não está. É toda a parte e nenhures. E talvez Rafael seja todos os marinheiros portugueses e nenhum. Talvez seja afinal um pouco de todos nós. O certo é que Thomas More atribui à sua Utopia essa estranha origem, uma história contada numa taberna de Amsterdão por Rafael, marinheiro português. De qualquer modo é uma história magnífica e fantástica. Talvez mais do que nunca nós precisemos de encontrara um novo Rafael, que nos fale de uma nova ilha, mesmo que essa ilha não exista em parte alguma ou só exista dentro de nós e se chame Utopia. Porque a verdade é que a História, como disse Joyce, se tornou um pesadelo. Bárbaros, para os gregos antigos, erram os que não falavam a mesma língua e não adoravam os mesmos deuses. Hoje, os novos bárbaros são os que não falam senão a fria linguagem do cifrão. E que substituíram os antigos deuses pelos sacrossantos mercados, de cujas variações decorre o bem-estar de poucos e o sofrimento da maioria da humanidade. Os oráculos dos antigos deuses deram lugar aos novos oráculos: as cotações da bolsa, as ordens de compra e venda dos corretores. Das suas indicações depende a vida das empresas, das famílias, das economias nacionais. E também das nossas culturas, das nossas línguas, das nossas identidades. É agora, com a perda do sentido e a ausência de uma perspectiva, que a História está a dar razão ao pessimismo de Joyce. Não porque tenha acabado. Mas porque deixámos de saber para onde vai. Que podemos nós contra a nova barbárie? Que podemos nós contra a violência e a injustiça? Que podemos nós contra uma lógica económica que exclui dois terços da humanidade? Eu penso que é preciso revelar este mundo, denunciar as suas injustiças e violências. E criar um outro. Não é um problema de geração. É uma responsabilidade de todos. Criar um outro mundo. Iniciar uma nova demanda. E por isso eu falei de Rafael, marinheiro português da Utopia. Porque não temos outra navegação senão essa: a busca de um mundo mais livre, mais justo e mais fraterno, como se diz, aliás, no preâmbulo da nossa Constituição, que tive a honra de escrever. Em toda a parte, aqui, dentro de nós. Eis o que tinha para vos dizer. Nunca gostei que me impusessem obrigações. Também nunca suportei a sujeição e a injustiça. A minha bandeira é a liberdade livre cantada pelo poeta Artur Rimbaud. A minha arma tem sido aquele “terrível poder de recusar,” de que falava Miguel Torga. Aprendi com António Sérgio a pensar livre e criticamente contra o reino cadaveroso do dogmatismo e do sectarismo. Por isso não esperem de mim que diga o que os jovens devem ou não fazer. O que peço aos jovens de hoje não é que sejam iguais a nós. O que lhes peço é que sejam eles próprios, que pensem pela sua cabeça e não se deixem instrumentalizar nem manipular por quem quer que seja. Parafraseando o velho Sartre, eu digo-lhes: “Não tenham vergonha de agarrar a lua, porque nós precisamos dela.” E digo-lhes ainda: não tenham medo de ousar o impossível, porque só a juventude capaz de ousar o impossível pode obrigar o poder a ousar pelo menos um pouco do que é possível. Vivam a vossa vida, ousem a vossa vida, ou, como queria o filósofo, dancem a vossa vida. E sejam o inconformismo, a irreverência, a rebeldia e o contra-poder de que todos os poderes precisam. Tendes nas vossa mãos o mais formidável de todos os poderes: o poder da juventude. Só esse poder é capaz de mudar a vida e transformar o mundo.
Discurso na Universidade Atlântica

12.11.2002

domingo, 11 de marzo de 2007

Congresso PS Santarém 2006

Congresso do PS en Santarém 2006, na voz da María de Medeiros, directora de Capitâes de Abril.

Meresce a pena de ver.

Obrigado.

sábado, 3 de febrero de 2007

REFERENDUM DO ABORTO














PS apela ao voto no “sim” contra o aborto clandestino e a prisão

O “PS está mobilizado” para o voto “sim” no referendo de 11 de Fevereiro para acabar com o aborto clandestino, “uma vergonha nacional”, e a pena de prisão das mulheres, afirmou hoje o dirigente socialista António Costa, em conferência de Imprensa, realizado na sede nacional do Largo do Rato.


António Costa, que se encontrava acompanhado pelos camaradas Maria Manuela Augusto e Pedro Nuno Santos, respectivamente, presidentes do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas e da Juventude Socialista, afirmou que é preciso votar “sim” para alterar a actual lei que já provou à sociedade ser ineficaz, apenas “promovendo a clandestinidade do aborto, praticado sem condições de segurança”.

E lembrou, a propósito, que em Portugal são praticados 18 mil abortos clandestinos por ano, sendo que 18 por cento dos óbitos maternos ocorrem na sequência de complicações pós-aborto, segundo dados da Associação de Planeamento Familiar.

Segundo António Costa, a lei portuguesa ainda é das mais restritivas da Europa e deve aproximar-se das soluções em vigor nos países mais desenvolvidos, que partilham os nossos valores. Por isso, frisou, “o voto no ‘sim’ também faz parte integrante da modernização do país”.

Outra das razões avançadas pelo dirigente socialista para o voto no “sim” é pôr termo à prisão, porque o aborto “não se trata com prisão”, já que é “uma questão de saúde e de apoio social”.

Salientando que “não é aceitável que se criminalizem consciências”, António Costa criticou ainda a falsa solução daqueles que afirmam ir votar “não” mas ao mesmo tempo dizem ser contra a pena de prisão. “Não há crime sem pena. Quem não quer a pena de prisão deve votar ‘sim’”, disse.

O dirigente socialista fez ainda um apelo à participação no referendo, manifestando a sua convicção de que “os portugueses saberão decidir bem”, ou seja, depositando nas urnas o voto no “sim”.